Origem e Elementos do Crowdsourcing

Por Jena Shams

Capítulo III – Fundamentos do Crowdsourcing: origem, elementos e aprendizados

Percebemos que as comunicações feitas entre indivíduos tomaram dimensões gigantescas, dian­te das ferramentas de conectividade trazidas atra­vés da internet. O conteúdo do que é expressado pode agora atingir milhares de pessoas, compro­vando mais uma vez que há uma revolução dos modos de comunicação presentes nos dias de hoje.

Sendo assim, percebemos que, nas relações en­tre o indivíduo e os diferentes meios de comuni­cação, é aparente a transformação que ocorreu nas áreas de comunicação, tecnologia e negócios de­pois do surgimento e desenvolvimento da internet. Complementando esta análise, constatamos que:

“As ferramentas da Web 2.0 estimulam o aumento e a popularização de comunidades baseadas na web, redes sociais, sites de compartilhamento de vídeos, wikis e blogs. Estas ferramentas permitiram que profissionais do mundo todo pudessem colaborar, interagir e participar de processos de inovação e criação de valor”. (KARAKAS, 2009)

O Mundo 2.028 é definido por Fahri Karakas, pesquisador especializado em comportamento organizacional, como:

“um ambiente interativo, hiper-conectado, imersivo, vir­tual, um sistema digital online ou uma mega plataforma onde usuários criam e dividem conhecimento, inovam e colaboram em conjunto, se divertem, interagem, constroem networking e se conectam uns aos outros, fazem o design de novos produtos ou compram e vendem mercadorias, conectam e comunicam-se globalmente com aparelhos celulares, escrevem blogs de reflexão, dividem suas fotos, fazem podcast de suas apresenta­ções ou criam filmes, desenvolvem projetos e se expressam ao mundo”. (KARAKAS, 2009)

De acordo com Fahri, o ecossistema no qual os indivíduos e organizações estão inseridos pode ser descrito em cinco elementos – os cinco C’s: Criativi­dade, Conectividade, Colaboração, Convergência e Comunidade.

É exatamente neste mesmo ambiente que ocorre o surgimento de ferramentas colabora­tivas, como “crowdsourcing”, “open source” e “crowd wisdom”.

A convergência entre os diferentes meios de comunicação está trazendo grandes conquistas e novidades para o Mundo 2.0. Um único canal de informação global está sendo formado quando TV, rádio, cinema, jornais e a própria internet conver­gem, potencializando as formas como se dão as trocas de informações. Neste ambiente, a internet é a ferramenta para conexão de pessoas, ideias, re­cursos e mercados, uma grande força de globaliza­ção, democratização e inovação social.

A força da convergência pode e vem sendo mui­to utilizada para mudanças sociais e para benefício de comunidades, o quinto elemento do Mundo 2.0. Estas novas mídias vêm sendo usadas em mo­vimentos sociais, a fim de comunicar, fazer as pes­soas conscientes do que está ocorrendo na socie­dade em sua volta e muitas vezes mobilizando-as a transformarem suas comunidades. O que ocorre neste ecossistema é que informações que no passa­do estavam dispersas, podem, através dos elemen­tos do Mundo 2.0, se fundir e colidir.

Assim como a inteligência coletiva de Lévy, descrita anteriormente, os usuários da web estão próximos, apesar das distancias físicas, e podem trabalhar em assuntos de interesse comum, que são de benefício à um grupo de pessoas – uma co­munidade. Nas palavras de Henrique Autoun,

“nas tramas de redes telemáticas cada vez mais ubíquas, as quais também devem ser entendidas como redes afetivas, as interações entre seus mais diversos membros configuram o canal no qual se tece o sentido de comunidade”.

(ANTOUN, 2008)

É bastante claro que a internet facilitou a tro­ca de informações entre grupos de indivíduos, colaborando para uma inteligência coletiva, a criação de uma cultura participativa, criando oportunidades para que consumidores se tor­nassem produtores, e principalmente, partici­pantes desta nova e emergente cultura. Junto a isto, percebemos que os elementos do Mundo 2.0 estão impactando profundamente os modos de operação de negócios, desenvolvimento de tecnologias e inovação, contribuindo para que grandes corporações enxergem no indivíduo um potencial para colaboração e participação. Um exemplo claro desta participação e colaboração é dado pelo crowdsourcing, o qual é impulsiona­do pelo ambiente digital colaborativo.

Crowdsourcing

Jeff Howe foi quem definiu o Crowdsourcing pela primeira vez, em seu artigo chamado “O sur­gimento do Crowdsourcing” na revista Wired30. Ele também explica que

“Crowdsourcing é quando uma empresa pega um trabalho que seria normalmente feito por um funcionário e a “terceiri­za”, em forma de “chamada aberta” à um amplo e indefinido grupo de pessoas que geralmente estão utilizando a internet” (HOWE, 2008)

Para o autor, alguns desenvolvimentos permi­tiram que fosse criado um ambiente especial para o surgimento de “crowdsourcing” e seu desenvol­vimento de maneira mais sistemática: o aumento de uma classe de amadores; um novo modelo de produção baseado em softwares de código aberto; a proliferação da internet e ferramentas se tornan­do mais acessíveis aos consumidores; e por último, a evolução de comunidades online.

A internet permitiu que comunidades fossem, pouco a pouco, formadas de acordo com interes­ses mútuos, aproveitando as capacidades dos en­volvidos para criação de uma rede. A informação que cada um dos membros possui pode chegar às maiores potencialidades quando combinadas e transformadas. Esta lógica, por sua vez, tem forte ligação com os estudos de Steven Johnson.

Steven Johnson, autor americano, observou por muitos anos os espaços que contribuem para a ino­vação, chegando a conclusão de que que existem alguns padrões que criam meios criativos.

Um destes padrões é o de que as ideias mais importantes levam muito tempo para evoluir e se tornarem úteis.

“As boas ideias surgem da colisão entre dois palpites menores, que formam algo maior que eles próprios”31.

Desta forma ele conclui que as ideias precisam de um tempo de incubação e de tempo para colidir com outros palpites, que provavelmen­te estão permeando as mentes de outras pessoas.

A história da própria internet, por exemplo, foi criada por Tim Berners-Lee depois de muitos anos de estudo. A princípio ele tinha um proje­to que o ajudava a organizar os próprios dados, mas não tinha uma visão completa do meio que acabaria criando. Ele então descartou este proje­to e depois de 10 anos, conseguiu criar uma visão completa da internet, juntamente com as ideias de outros indivíduos.

“Estudando a problemática da inovação neste aspecto, sabemos que o grande propulsor da inovação científica e da inovação tecnológica sempre foi o aumento histórico na conec­tividade e na capacidade de buscar outras pessoas com quem possamos trocar ideias, pegar emprestado palpites alheios, combiná-los com ossos próprios palpites e transformá-los em algo novo. Nos últimos 15 anos cresceram as novas formas de nos conectar e de buscar e encontrar novas pessoas, ou de nos depararmos para encontrar informações que podemos usar para desenvolver nossas próprias ideias.” (JOHNSON, 2010)

Nesta mesma linha de pensamento, lembra­mos-nos de Pierre Lévy, quando discute a res­peito da inteligência coletiva, explicando “nin­guém sabe tudo, todos sabem alguma coisa, todo o conhecimento está na humanidade”32; e podemos juntar as peças, se associarmos nossos recursos e unirmos nossas habilidades. Henry Jenkins também escreve que

“o que consolida uma inteligência coletiva não é a posse do conhecimento que é relativamente estática -, mas o processo social de aquisição do conhecimento – que é dinâmico e

participativo” (JENKINS, 2009)

Um dos exemplos mais antigos de “crowdsourcing”: a distribuição de um problema para um grande público, em busca de uma so­lução, concretizando as palavras de Clay Shirky quando diz que “a habilidade de distribuir um pro­blema para um público aumenta a probabilidade de uma solução” (SHIRKY, 2008).

Elementos Fundamentais do Crowdsourcing

De forma bastante resumida, o processo começa com o open call de um indivíduo ou grupo relati­vamente pequeno de pessoas – crowdsourcer - cha­mando um grupo maior de pessoas de sua escolha a contribuir com informações e dados com um ob­jetivo específico, dentre eles pode estar a necessi­dade de resolução de um problema, construção de um novo produto, necessidade de fundos para um projeto específico, entre outros. Existem elementos de incentivo criados neste sistema, a fim de moti­var o público a contribuir com material, e um pro­cesso de filtragem de ideias. O resultado e conhe­cimento moldado pode ser posteriormente aberto para conhecimento do público.

Tipos de Crowdsourcing

Existem diferentes categorias de crowdsour­cing, como explicado por Howe, as quais são:

Collective Intelligence, que se baseia em inte­ligência compartilhada por um grupo de pessoas. Um exemplo é InnoCentive, uma empresa que uti­liza um grupo diverso de pensadores e cientistas para resolução de problemas técnicos;

Crowd Creation, onde empresas se voltam a seus clientes para que eles criem, co-criem os produtos e serviços oferecidos. Exemplo deste tipo de crowdsourcing é o utilizado pelo Doritos, que fez uso de seus consumidores para escolha de novos sabores do produto;

Crowd Voting, que parece ser uma junção de crowd wisdom e crowd creation, utilizando o julga­mento de um grupo de pessoas para organizar quantidades grandes de informação. Um exem­plo é o modo como o Google opera com algo­ritmos baseados na popularidade de sites, um resultado do modo como as pessoas navegam;

Crowdfunding, como em projetos de mi­cro-lending, onde pessoas contribuem de algu­ma forma com fundos para iniciação de um projeto específico;

Estágios do Crowdsourcing

O processo de crowdsourcing pode ser entendido em 5 estágios de desenvolvimento que são descri­tos como na Figura 3. Em primeira instancia se vê a necessidade de trabalhar com crowdsourcing, a par­tir do momento em que existe a oportunidade de um problema e que este pode ser resolvido a partir do uso de um grupo de pessoas. Neste caso, acredi­ta-se que o público pode contribuir de formas mais eficazes do que com utilização de outros recursos.

Em um segundo momento, o crowdsourcer comunica este problema em forma de call, jun­tamente com as instruções para o processo de crowdsourcing. Desta forma, abre-se a oportu­nidade para que o público contribua com sua participação na resolução de problemas.

Em terceiro lugar, o crowdsoucer coleta infor­mações e inputs dados pelos participantes, com o envolvimento de formas de motivação que podem ser intrínsecas ou extrínsecas.

O quarto estágio é o de filtragem das ideias, que pode ser de duas formas que estão relacio­nadas. Uma forma de filtro é dada pelos pró­prios participantes, que ranqueiam as ideias de acordo com o conhecimento e aprendizado do próprio grupo. Outra forma de filtro é feita atra­vés de uma lista elaborada pelos próprios parti­cipantes a respeito dos critérios que devem ser considerados, que depois é entregue a um gru­po de profissionais que trabalham para o crowd­sourcer e que escolhe quais inputs ou combina­ções de inputs é de valor para o crowdsourcer.

Em um quinto e último momento, existe a decisão de futuros projetos de crowdsourcing que podem ser colocados em prática. Em pro­jetos onde se encontram benefícios tanto para o crowdsourcer quanto para o público, novas for­mas de colaboração podem surgir, dando início a novos ciclos de projetos de crowdsourcing.

Crowdsourcing e as Organizações

Eric Von Hippel36 , parte do grupo de Inovação do MIT’s Sloal School of Management, diz que hoje os consumidores estão tomando conta do processo de inovação com suas próprias mãos. Mais uma vez, percebemos evidências da participação do “Prosu­mer”, definido por Toffler. De acordo com Hippel, as tarefas de inovação estão passando do fabrican­te para o usuário, que tem grande necessidade e habilidade de melhorar o desempenho de um pro­duto. Isto deve ocorrer, muito provavelmente, por­que são estes consumidores que convivem com o

produto e o usam de fato em suas rotinas diárias. Neste caso, porém, as empresas tiveram que abra­çar estas mudanças e criar um relacionamento de criatividade junto a seus clientes.

Clay Shirky conceitua este fenômeno como “downsourcing”, que ocorre quando um fabri­cante transfere a carga de uma função – ino­vação, neste caso – para a cadeia inferior do “supply chain”, o consumidor. Neste caso a em­presa estabelece a inovação e a vende ao con­sumidor, que neste caso chega a ser o próprio fornecedor da ideia. Estes casos são exemplos concretos de usuários que fazem uso das fer­ramentas ao seu redor para construção de ino­vação que pode ser posteriormente utilizada por empresas.

Percebemos, em última análise, que a atu­ação e participação dos consumidores é bas­tante ativa. É claro que os consumidores po­diam explorar suas ideias e compartilhar seus interesses e opiniões com aqueles a seu redor, mas obviamente em uma escala muito menor da que vivenciamos nos dias de hoje. Percebe­mos diante destas colocações que o consumi­dor pode vir a ser grande fonte de inovação e ideias, uma vez que se insere em comunidades que tem o poder de absorver suas habilidades e capacidades, contribuindo e colaborando com produção de conteúdo.

Karim Lakhani37 explica diversas vezes, baseado em experiências passadas em pro­jetos de “crowdsourcing”, que o sucesso de um colaborador aumentava em áreas em que ele não tinha expertise formal, de forma que quanto mais longe o problema estivesse de sua área de conhecimento, mais chances do problema ser resolvido. Ele explica este pro­cesso com uma imagem bastante simples: deve-se pensar no problema como uma flor. O objetivo não é só de atrair o maior numero de insetos, mas garantir que sejam da maior diversidade possível.

Aprendizados

Jeff Howe aborda nos últimos parágrafos de seu livro 10 regras para o funcionamento do cro­wdsourcing, baseadas em experiências passadas de organizações. Estas regras estão descritas no quadro abaixo. Obviamente, este conjunto de afir­mações pode ser questionado, dependendo da área em que o projeto está inserido. Sendo assim, não é um grupo de regras limitadas e fechadas.

Trecho do Projeto de Graduação da ESPM,  da ex-aluna de Comunicação Social  Jena Shams.

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